Mesquinharias
segunda-feira maio 24th 2010, 10:00
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Brasil,
humor
Publicado por: Fábio Marton
Se alguém me pergunta por que não voto em Dilma, atualmente só preciso de três letras para explicar: Irã.
Isso costuma ser recebido com aquela expressão de vago respeito condescendente, quase pena, de quem acaba de ouvir alguém dizer que sua profissão é poeta ou filósofo. “Pobre tolinho idealista”.
O que me faz pensar em como está sempre presente o material que faz as ditaduras, a amoralidade política, isso de cegar-se diante da opressão alheia – e falo em opressão deliberata e direta, dar um tiro na cabeça de alguém, não “oprimir” colocando um anúncio de cerveja na TV.
O que me incomoda, porém, não é tanto essa mesquinharia filha-da-puta, que é onipresente no mundo todo. Quem ajusta suas ideias à média, por seus interesses sociais – e são quase todos – não pode mesmo achar grande coisa a destruição da liberdade de discordar. Só ingênuos discordam, e por isso vivem aí pelos cantos.
Me pertura o fato que muitos brasileiros, efetivamente, apoiam a decisão do governo em dizer que o Irã pode ter armas nucleares. E voltamos então ao post anterior, o sucesso permanente da propaganda marxista: mesmo na imaginação popular, ser anti-americano (e anti-Israel) é por si só um mérito que redime ficar ao lado de qualquer atrocidade.
E há o lado da propaganda mais comezinha, meramente petista. Privatizar foi jogar na mãos do capitalismo internacional o que era imaculado interesse público. Não ser anti-americano é jogar nossas “riquezas naturais” não mao “dos gringo”. Numa réplica da estratégia da comunsita, temos duas porcarias de igual tamanho, mas uma aponta a um futuro melhor: corruptos todos são, mas a corrupção petista foi feita não por mero, mesquinho, capitalista e tucano interesse pessoal, mas para o nascimento do Brasil-potência.
É claro que os herdeiros da propaganda soviética não querem mais outro regime econômico, que eles sabem muito bem ser inviável. Querem propagar a fé de sua igrejinha, e ganhar poder com isso. A proposta é mais para a discussão de colegiais que uma grande transformação social: “Cara, temos ideias tão legais, por que não somos nós no governo?”.
O Socialismo do Século 21 não é um mito – só não é socialista.
Dois lados da propaganda marxista

Propaganda é uma palavra que faz muita falta ao português. É claro que apalavra é usada o tempo inteiro, mas seu sentido em português se confunde com outros usos. “Propaganda” aqui significa indiscriminadamente tanto a alta propaganda de ideias – o sentido a que me refiro – quanto “propaganda” eleitoral ou comercial. Como se convencer alguém a comprar um pacote de biscoitos fosse igual a ensinar uma pessoa quem amar e odiar, que opiniões considerar e quais atirar ao lixo.
A União Soviética pode ter desabado por sua incosistência econômica, mas teve uma vitória acachapante na guerra da propaganda. E essa vitória ocorreu por dois lados: tanto por esforços diretos de propaganda quanto pelo indispensável auxílio dos críticos marxistas da União Soviética.
(mais…)
Menos-que-pretos
Há um tempo, por um reflexo um tanto conservador, eu também me queixei do movimento negro estar tentando aplicar a one-drop-rule no Brasil e celebrandoo país ter se tornado de “maioria negra”.
É uma conclusão um pouco apressada, já que “pardo” pode incluir de alguém com um fenótipo totalmente indígena a um sujeito com aspecto mediterrâneo, indiscernível de um egípcio. Além, claro, também dos mulatos, que seriam simplesmente negros nos Estados Unidos. Os movimentos negros americano e brasileiro praticam a one-drop-rule para engrossar suas fileiras com novos herois, como Alexandre Dumas pai, Machado de Assis e Alexander Pushkin. Será que eles estão errados?
Como disse acima, “pardo” não é equivalente imediato a “mulato”, mas a questão que me escapou, e escapa a muitos, é se realmente é um bem essa construção na história do Brasil. Se a figura do mulato realmente torna a postura brasileria mais generosa, menos racista que a dos Estados Unidos.
O fato é que, ao dizer “mulato”, “moreno”, “jambo” etc., o que estamos afirmando é que uma pessoa é “menos-que-preta”. Isso pode ser geneticamente realista, mas trai outra ideia: que negro é ainda ruim, menos-que-negro é, portanto, menos ruim. Ser menos-que-negro serviu de passaporte para que gente como Machado de Assis e Lima Barreto se tornassem a celebração de nossa sociedade “não-racista” – desde que fossem um tanto brancos. É apenas a inversão da one-drop-rule, onde ser algo branco “redime” o mulato.
Mas o que acontece quando você é simplesmente negro? Quando não está protegido pela ideologia oficial de miscigenação? É melhor ser lembrando que as figuras não-brancas socialmente aceitas eram parcialmente brancas? Que o presidente dos Estados Unidos é só meio negro? Será que a ideia de mulato não é uma forma de excluir os negros?
Esta dúvida é incipiente ainda para mim. Ainda em Curitiba, tive um amigo que fazia questão de se definir como negro, mesmo que os outros o vissem como mulato. Dizia que quase brigou com a mulher do censo uma vez. Hoje me pergunto se ele não tinha razão.
Desigualdade: um breve exercício mental
terça-feira abril 20th 2010, 21:01
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economia,
ideologia
Publicado por: Fábio Marton

Você é a favor dos pobres ou da pobreza?
Imagine o Sudão. Todo mundo vivendo na miséria, temos uma distribuição de renda quase perfeita, aproximando do GINI zero. Suponhamos que se instale uma fábrica no Sudão. Com algumas pessoas trabalhando nessa fábrica, imediatamente temos um aumento de desigualdade de renda, pois nem todos serão empregados por ela. Você seria contra?
Agora imagine que pudéssemos, por uma medida mágica, aumentar em 200% a renda de toda a classe D. Mas isso tem uma condição: só pode acontecer se aumentarmos em 400% a renda dos milionários locais. Você seria contra? Pois eu duvido que a classe D seria contra.
Mas isso é apenas um teste para saber se seus conceitos de justiça não são opostos aos desejos dos mais pobres. Numa economia competitiva, não travada por por regras corporativistas, a necessidade de reinvestir deixa menos a ser usufruido pelos ricos, ao menos os ricos principiantes. E o aumento da classe média – e os salários – faz diminuir a concentração de renda. É isso que vem diminuído o índice GINI do Brasil, não o Bolsa-família, até porque quem vive com 150 reais por mês não entrou exatamente na classe média.
Além disso, no Brasil, o Estado é um grande concentrador de renda. Nas regiões menos desenvolvidas, e não por acaso as menos capitalistas, ser de classe média é equivalente imediato a ser funcionário público, que não poucas vezes ganham, principalmente em funções altas, muito acima do que o mercado local seria capaz de prover. Um professor, de fato, ganha mal, mas quanto ganha o reitor da universidade local? Um juiz?
O dinheiro dessa classe média estatal não foi só tomado dos empreendedores, mas também dos pobres, via impostos embutidos em produtos. Essa é uma desigualdade de renda à que me oponho.
Alô você…
…que achou a coisa mais hilária do mundo as enchentes “do Kassab/do Serra”*, mas agora está aí, todo condoído com o sofrimento humano causado por uma incomensurável catástrofe natural.
*78 mortos, todos pobres.
Tópicos da filosofia continental
Vazio existencial: a ausência de vontade de encher os outros de chumbo.
Alienação: estar feliz com não encher os outros de chumbo.
Materialismo dialético: método racional de conseguir motivos para encher os outros de chumbo, que tem o inconveniente de ser racionalmente falso.
Pós-modernismo: após o fracasso do método racional, provém motivos para encher os outros de chumbo.
Opressão: a ausência do Estado em encher os outros de chumbo.
Liberação: encher os outros de chumbo.
Pacifismo: permitir que encham os outros de chumbo.
Imperialismo: a intromissão dos estados ocidentais no imperialismo islâmico, soviético, fascista e/ou terceiro-mundista, enchendo eles de chumbo. O que é errado.
Explicando o pós-modernismo
domingo março 28th 2010, 16:47
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filosofia
Publicado por: Fábio Marton
O filósofo libertário – sim, eles existem – Stephen Hicks faz um belo resumão do Pós-modernismo em:
Para Hicks, não existe liberais pós-modernos, apenas socialistas – e, eu adicionaria, conservadores, que são outro tipo de socialista. Falo mais quando eu terminar o livro.
A droga não faz o assassino
quarta-feira março 24th 2010, 18:08
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crime,
cultura,
notícias
Publicado por: Fábio Marton
Várias vezes aqui já me afirmei a favor da liberação irrestrita das drogas – irrestrita no sentido que nenhuma deve ser proibida, não que não devam haver regras, como já existem para o álcool, remédios e tabaco.
Ora, liberar as drogas é justamente colocar no usuário a responsabilidae por seus atos. Inclusive eu seria a favor que o uso de entorpecentes fosse agravante, não atenuante para crimes. Se você sai de si quando usa alguma coisa – álcool o exemplo mais óbvio – você tem a responsabilidade de evitar usar aquilo, porque está pondo em risco outras pessoas. Quantos não bebem antes de cometer um crime justamente porque sabem que não tem coragem de cometer esse crime sóbrios? A droga não faz o criminoso, o criminoso é que faz uso dela – bem como o não-criminoso.
Quanto à discussão sobre a morte de Glauco e a relação com o assassino e o daime, ela tem mais uma vertente, que é a responsabilidade de quem provém uma droga a outro. Não digo enquanto mero comerciante, como se o supermercado devesse responder pelo coma alcóolico, mas a de alguém que assume a função de um médico e consultor espiritual. Através do chá de ayauasca, a seita prometia curas. Ora, assim como um homeopata tem a obrigação de enviar um canceroso ao tratamento alopático mais eficiente, e como um psiquiatra não pode chamar um alcoólatra para tomar caipirinha no fim do expediente, eles deveriam ao menos ter tentado enviar o psicótico para tratamento, ao invés de provir-lhe de um altermente que poderia piorar sua situação. E note-se que eles não oferecem o chá para qualquer um que entra lá dentro, mas o candidato tem que ser aceito primeiro. A seita não é culpada direta ou indireta do homicídio de Glauco – você não pode responsabilizar alguém pelas atitudes de um insano -, mas ela agiu de forma irresponsável ao não ter o cuidado de afastá-lo.
O crime da seita, se há crime, não é ter feito um assassino, mas agir de forma charlatã com um doente.
Re-post: A respeito das mulheres
segunda-feira março 22nd 2010, 0:02
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misoginia
Publicado por: Fábio Marton
As plantas carnívoras pertencem à ordem das Nepentáceas. Elas devoram insetos voadores e possuem em comum a característica de iludirem a presa simulando possuir alguma coisa que ela deseja muito (geralmente néctar, às vezes carne podre), tendo, aos olhos ingênuos do animal, o aspecto de lindas flores/bifes.
As plantas do gênero Nepentes, que ocorrem principalmente na Ásia, atraem a vítima a entrar em seu cesto, que lembra uma orquídea e no fundo do qual há o líquido digestivo. Com as asas úmidas, o inseto não pode voar até a saída. E, como o cesto é revestido internamente de pelos escorregadios voltados para o fundo, a presa também fica impossibilitada de escalar rumo à saída, e, exausta de tentar, acaba se entregando ao líquido corrosivo. Um poço misterioso no fundo do qual só se encontra a própria aniquilação.
J
á as Drosera, comuns na América do Sul inclusive o Brasil, possuem glândulas que secretam um líquido doce e pegajoso, prendendo a vítima como num papel mata-moscas. Seus tentáculos coloridos são lentamente dobrados em direção à presa, fixando-a junto à base da folha, onde o suco digestivo é secretado. A vítiima vai ficando cada vez mais constrita pela doçura, até ser exaurida de sua força vital.
As do gênero
Dionaea, com o sugestivo nome popular de Armadilha de Vênus, ocorrem nos EUA e também são as preferidas dos roteiristas de filme B. Suas boquinhas apavorantes são carregadas de um néctar doce e perfumado, reminescentes a flores inocentes para um inseto teimoso e cegado de vontade. O ataque é imediato. Quando a vítima toca em seu pelinho sensitivo, ela se fecha violentamente e é nunca mais.
A ideologia do dono da padaria
Vamos deixar claro, eu detesto o PSDB e o DEM. A juventude DEM defende a meia-entrada no cinema, o PSDB é o partido que criou a Lei Rouanet. Políticas como a proibição do fumo em espaços privados mostram que a moral deles é tão formigueirista quanto a do PT.
No entanto, muita gente que não é petista tem vivido em negação. Talvez por um espírito de apaziguamento, deixa de notar a fundamental diferença que há entre esses partidos, independente do programa de governo. Em geral isso se faz reduzindo a discussão a um economismo esdrúxulo, ideologia de dono de padaria. Assim, Lula aumentou menos a carga tributária/Não causou inflação/Não é Chávez = Lula é liberal de quarta geração, anda com um santinho de Adam Smith no bolso. Como se o crescimento do PIB fosse a única coisa em jogo, e não houvesse nada de errado em acordarmos com o sistema chinês no Brasil, já que ele é “capitalista”.
Muito diferente de DEM e PSDB, o PT empolga. Não é simplesmente um partido político, um que veja sentido no sistema que limita seus poderes e garante a existência de oposição. O PT é um movimento de massas carismático e com ideologia salvacionista, para o qual tudo o que veio antes estava em pecado. À moda dos diversos autoritarismos do século 20, quem realmente está dentro faz uma clivagem clara entre amigos e inimigos, sendo os últimos quem expressar qualquer restrição ao pacote fechado da ideologia. Exceto quando vem de dentro, dos “nossos”, não existe crítica possível ao PT, qualquer ação em contrário é sabotagem, é você ser um conspirador, “reacionário”, e potencialmente, talvez, uma menos-que-pessoa.
Por seu turno, o partido não vê nada de errado em sabotar assumidamente um governo opositor, por aparelhamento do Estado e greves puramente políticas. Isto é, não há nenhum problema na visão petista em conspirar contra a vontade das urnas se isso favorece o movimento. Porque, para o PT, a oposição é uma concessão magnânima que fazem por sua vontade de se afirmar como tirania da maioria, o que lhes daria legitimidade para fazer absolutamente qualquer coisa. “Tirania da maioria”, aliás, é um conceito alienígena à mentalidade jacobina do partido, para a qual maioria equivale a democracia.
E isso eu digo sem nem começar a discutir os méritos da ideologia em si, sua hostilidade ressentida ao Ocidente, e uma visão econômica que não é marxista, mas talvez pior porque economicamente viável, um corporativismo varguista, revisto em Geisel – a aliança profana entre Grande Capital e Grande Governo, o segundo auxiliando os primeiros a chutar a escada da concorrência, recebendo em troca o governo apoio político ao seu “socialismo”. Como visto também na Itália fascista e China pós-Mao, o pior dos dois mundos.
Isso não tem nenhuma relação com capitalismo ou seu oposto. Após um desempolgante suspiro de civilidade política, o PT fez o brasileiro redescobrir as emoções do autoritarismo, a vontade de vencer no grito, o gosto por ser capacho de um caudilho.