Ciência velha
terça-feira fevereiro 02nd 2010, 16:43
Arquivado em: ciência, comunismo, história, ideologia
Publicado por: Fábio Marton

Nos anos 40, descobriu-se um inseticida que parecia ter tornado pragas de seis patas coisas de um passado remoto: o DDT. Capaz de destruir o sistema nervoso dos artrópodes, o veneno não causa qualquer efeito imediato aos vertebrados – você pode tomar um copo de DDT e não vai sentir nada. Considerado seguro, o inseticida foi aplicado extensivamente ao meio ambiente e, ao diminuir a população de pernilongos por alguns anos, conseguiu erradicar a malária de divrsas regiões, como o Sul da Europa, os Estados Unidos e várias partes do Brasil, como Minas e Bahia.

Duas coisas, porém, a ciência da época não previu. Uma foi que a evolução pode agir muito mais rapidamente que se imaginava e acabou por selecionar pernilongos resistentes, de forma que em 5 anos o veneno não era mais capaz de matar todos os insetos.  Outra foi o efeito do DDT na cadeia alimentar, se acumulando no corpo de animais, principalmente os que estavam no topo dessa cadeia, como grandes predadores e as próprias pessoas que se alimentavam de peixes e caça contaminada. Pouco DDT é inofensivo a um vertebrado, mas muito pode causar mutações e problemas hormonais. Nos anos 60, a população de peixes e predadores estava declinando nas regiões onde se aplicou extensivamente o veneno. Isso acabou levando ao primeiro movimento ecológico da história e ao banimento total do DDT nos anos 70 – medida que alguns consideram exagerada.

Note-se aqui que o surgimento da consciência ecológica deve-se a uma evolução do pensamento científico, não sua negação. Alguém que decidisse hoje ignorar tudo o que se aprendeu e jogar DDT de avião sobre um mangue seria, corretamente, taxado de retrógrado, anacrônico, anticientífico.

Quando as ideias socialistas surgiram, elas aparentavam terem mais valor científico que as ideias liberais. A “mão invisível” soa uma coisa quase teísta, rescindindo a cristianismo recalcado. “Não faça nada, espere passar” é sempre um conselho frustrante, enquanto que economistas socialistas, marxistas ou keynesianos, possuem um arsenal de tabelas, cálculos e conselhos para melhorar qualquer coisa na vida. Reprimindo abertamente o pensamento religioso, a União Soviética e os países comunistas em geral pareciam apontar o futuro, um mundo mais científico, mais controlável.

Já nos anos 30, economistas da escola austríaca provaram que havia muitas falhas na ciência socialista, das quais a maior é delegar aos planejadores econômicos a tarefa impossível de calcular o resultado de um processo caótico, a construção de preços. Sem um sistema de preços adequado, o mundo soviético vivia em constante crise de produção, fazendo mais do que devia de certas coisas e racionando outras.

Talvez o homem comum seja mesmo um capacho lambedor de botas que troca a liberdade por um colchão de molas sem piscar, mas o mundo socialista não foi apenas opressivo a pensadores não-alinhados, foi miserável e insatisfatório ao trabalhador comum – eis a maior razão de sua derrota.

Onde quero chegar? Socialistas contemporâneos agem como o sujeito que quer aplicar DDT ao manguezal. Eles usam de ferramentas intelecutais que a experiência provou ultrapassadas – são claramente uma força retrógrada, e é assim que deviam ser chamados: reacionários, anticientíficos. E corporativistas, pessoas se defendendo por diversos expedientes da experiência histórica, de forma a prosseguir trabalhando com instrumentos obsoletos, poupando-se do esforço de se adaptar ao que o conhecimento nos trouxe.

Talvez a minha metáfora nao seja das melhores. O DDT, afinal, salvou muita gente da malária e mesmo seu fracasso trouxe conhecimentos importantes. A maior  herança do marxismo foi ter tornando o ataque ad hominem (“você defende isso porque é seu interesse de classe”) um argumento intelectual válido.


6 Comentários so far
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Meu caro, sua metáfora fou excelente. Sempre me peguntei por que o DDT parou de ser fabricado. Achava que era por causa de terrorismo ambientalista.
Quanto ao cerno do post, mais uma vez impecável. Sou servidor público e me assusta o caminho que a canalha petista tomou contra z população brasileira. Um dia lhe enviarei exemplos concretos. Continue firme! Abraço.

Comentário por Beirnha 02.04.10 @ 19:47

Gostei especialmente deste post; a analogia ciência-política foi muito boa ;-)

Comentário por Ed 02.05.10 @ 12:54

[...] 6, 2010 in história, outros, política Do Marton, agora no portal Apostos. Meu outro blógue Dicionário Invertebrado [...]

Pingback por relíquias de ciência velha « 02.06.10 @ 7:20

Sua ilação foi péssima.

Comentário por Chesterton 02.07.10 @ 11:54

http://www.junkscience.com/malaria_clock.html

Comentário por Chesterton 02.07.10 @ 13:26

Ótimo post, mas talvez não tenha sido bem assim.

O socialismo foi depurado, coado, processado, e um decalque seu resiste sob as mais variadas formas de regimes social-democratas por aí.

É claro q no q diz respeito à forma de organizar a economia, foi um fiasco estrondoso, mas no q tange ao ideário vago de “distribuição equânime de bem-estar”, vale o q disse aí em cima.

Comentário por Frank 02.07.10 @ 20:25



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